Conto Parte 8: Dasvidaniya


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Valeska estava certa. Foi Ronaldo quem escreveu as fórmulas na parede. Mas depois de um tempo especulando sobre aquilo, eles chegaram a conclusão de que tudo estava muito confuso e que eles nunca saberiam de fato como aquelas fórmulas foram parar ali. Resolveram, então se preocupar em como sair dali.

-Tem certeza disso?

-Tenho. Está claro como água. - Ronaldo tinha a certeza do que falava estampada em seu rosto.

-Se seguirmos esses dados não só sairemos dessa bolha temporal, como poderemos acabar com tudo isso. Temos que entrar na névoa nessas coordenadas a uma velocidade de cerca de 142Km por hora, para chegarmos momentos antes de Medvedev ligar a máquina. Com isso evitaremos o clarão e toda essa merda em que ele nos colocou.



A idosa não conseguia esconder uma certa desconfiança daquela teoria de filme B de ficção científica. Mas tentar aquilo era melhor do que ficar ali esperando algo pior que um Velociraptor sair da névoa. Os dois saíram a procura de outros veículos que estavam perdidos pelo campus, precisavam de combustível para abastecer o DeLorean do professor Olaf. Com o carro abastecido, se prepararam para a jornada.

-As coordenadas apontam em direção do prédio onde a máquina antigravidade está. Parece que é o mesmo ponto de onde surgiu o raptor. - Observou Ronaldo.

-Só espero não cair no meio do Jurassic Park.

Ao dizer isso Ronaldo e Valeska se olharam surpresos.

-Deja vu! - exclamaram juntos.

Achando graça naquilo Ronaldo deu partida no carro, foi quando ele reparou num detalhe que havia escapado aos dois.

-O velocímetro do carro é em milhas por hora! Quanto dá 141,62 quilômetros por hora em milhas?

-Deixa comigo!

Valeska fez uma conta rápida num pedaço de papel, quando chegou no resultado ficou com uma expressão abobada.

-O que foi? - Ronaldo perguntou intrigado.

A idosa apenas virou a prancheta que estava segurando para que ele pudesse ver o resultado da conta.

-Puta que pariu! Uma vigem no tempo, num DeLorean, a 88 milhas por hora! 

-Great Scotch! - Exclamou Valeska, usando o famoso bordão de Doc. Brown.

Ronaldo engatou a primeira marcha e saiu cantando os pneus. Em minutos, chegaram ao local, o rapaz posicionou o carro a um distancia que julgava apropriada para chegar na parede de névoa na velocidade certa. Os dois conferiram os cálculos várias vezes para não errarem. Quando se certificaram de tudo, se acomodaram nos bancos do carro. Ronaldo não tinha mais a expressão animada de algumas horas atrás, estava nervoso. Nervoso porque não sabia o que ia acontecer, não sabia se chegaria a tempo de parar Medvedev. Não sabia nem como faria isso. Valeska percebeu a situação em que o rapaz se encontrava, gentilmente pousou sua mão na do rapaz que segurava a alavanco do câmbio. Ele levantou os olhos e encontrou um sorriso gentil no rosto da amiga, sorriu de volta e respirou fundo. Engatou a marcha e acelerou em direção a parede de névoa. A poucos metros do objetivo o Delorean DMC-12 do professor Olaf chegou à velocidade de 88 Milhas por hora e penetrou na Fronteira, deixando para trás um mundo vazio.

* * *

O professor Yuri Medvedev estacionou o carro em sua vaga reservada naturalmente, como faz todos os dias. Ele regressara no dia anterior de uma viagem urgente à Moscou, fora chamado às pressas para uma reunião com diretores do Instituto Lebedev de Física, um dos mais antigos centros de pesquisas científicas do país e que faz parte da prestigiosa Academia de Ciências da Rússia. Apesar da surpresa da convocação, Medvedev, que não tem parentesco algum com Dmitri Medvedev, o Primeiro-Ministro daquele país, tinha certeza do assunto a ser tratado, sua máquina de antigravidade. Ele havia submetido, a contragosto, seus cálculos e projetos para o Instituto, a pedido de seus contatos nas forças armadas. O encontro não foi nada agradável, Medvedev teve que ouvir, de seus colegas físicos, que seu projeto, apesar de promissor, apresentava falhas nos cálculos e que a forma como foi concebido poderia apresentar perigo real de um desastre maior do que foi a explosão do reator da Usina de Chernobyl, e sugeriram que ele voltasse ao planejamento antes de iniciar os testes da máquina.

Por isso, hoje é um dia diferente, a raiva queima em sua mente, o ódio consome cada fibra de seu ser. Ele desligou o motor do carro e ficou ali parado olhando para o nada por alguns segundos.

“Biltres! Se acham melhores do que eu, só por que trabalhei para a KGB.” - pensou - “É esse o problema com este país. Ele é controlado por fracalhões medrosos que rastejaram pelas rachaduras do governo soviético até chegarem ao poder. Seguiram a trilha de muco daquele traidor rastejante Gorbachev. São estes, que estão no poder, que tiraram toda a glória da Mãe Rússia, a desnudaram e mutilaram e agora é apenas uma sombra pálida da potência que foi no passado. Mas eles vão ver! Vou mostrar que a Rússia pode ser grande novamente, vou mostrar que podemos peitar aqueles yankes gordos e arrogantes! Vou devolver a grandeza da minha amada nação e assim ela ocupará o seu lugar de direito, no topo da lista das maiores potências que o mundo já viu!”

Com essas palavras ecoando em sua mente, Medvedev respira fundo, e decidido, abre a porta do veículo e se dirige para o prédio anexo da reitoria da universidade. Ele está resoluto, não importa as consequências, ele sabe que seu projeto e cálculos estão corretos, sua máquina funciona e ele, um russo, será conhecido como o homem que criou a máquina antigravidade.

Enquanto o obstinado professor se dirige, com passos firmes, para realizar o experimento, que em seu raciocínio, pode devolver a grandeza de outrora ao seu país, uma dupla de estudantes sai em disparada do alojamento dos estudantes para não chegar atrasado para o início das aulas daquele dia quente da primavera russa, ao mesmo tempo, uma jovem de cabelos vermelhos chega à sua sala de aula e avisa sua amiga que seu namorado brasileiro tinha acabado de acordar, segundo seu amigo, e que iria se atrasar, de novo.

É é nesse exato instante que, num lugar mais afastado do campus, longe dos olhares dos estudantes e professores, que o Sr. Kowalski, um imigrante polonês e um dos mais antigos funcionários, exercia sua rotina diária de cuidar da manutenção das instalações elétricas da Universidade. Ele tinha recebido várias reclamações de equipamentos eletrônicos danificados devido a grandes flutuações nos níveis de energia na rede elétrica. Ele não conseguia descobrir o que estava acontecendo, embora ele suspeitasse que as ocorrências estavam relacionadas ao que era realizado no prédio anexo da Reitoria, que era bem próximo dali. 

O homem de cabelos brancos, já nos seus sessenta e poucos anos, acabara de abrir um quadro de comandos elétricos para avaliar seu estado, estava verificando os disjuntores quando sentiu uma leve comichão. A sensação foi percebida primeiro na nuca mas sua intensidade aumentava e se espalhou rapidamente pelo seu corpo. Levantando seus braços ele viu os pelos de seus membros eriçados, como se fossem centenas de alfinetes espetados. Essa foi a confirmação de suas suspeitas. Eletricidade estática. Ele já sentia seus cabelos prateados tomarem a mesma posição que seus pelos. Assustado, se afastou do quadro de energia que começava soltar faíscas. O sr. Kowalski deu graças aos céus por portar seu EPI, que incluía um belo par de botas de material isolante, caso contrário, teria sido vítima de uma descarga elétrica que o mataria com certeza. Seu único pensamento era de dar o fora dali antes que alguma coisa ruim acontecesse com ele. Estava saindo do local quando ouviu, ao longe, um ribombar crescente. Pareciam trovões que chegavam cada vez mais perto. Em confusão, olhou para o céu azul-claro, sem nuvens. Se perguntava o que poderia ser aquilo quando uma pequena explosão o atirou contra uma parede. A dor nas costas foi imediata, fora o choque que levou com a descarga da eletricidade estática em seu corpo. Estranhamente muito mais leve do que a descarga que esperava levar devido à quantidade de energia que julgava estar acumulada sobre sua pele. A explosão que o jogou contra a parede era apenas a primeira de uma sequência, o clarão das explosões fez com que o idoso levasse as mãos a altura dos olhos para protegê-los. Elas ocorriam num crescendo até que, para espanto do Sr. Kowalski, algo realmente fabuloso aconteceu. De olhos arregalados ele viu um carro surgindo do meio das explosões em alta velocidade. Assim que o veículo se afastou dos estampidos, estes cessaram, o veículo ainda andou mais alguns metros até travar os quatro pneus deixando marcas de borracha queimada no piso. 

* * *

Medvedev chegou à entrada do anexo.

-Bom dia Gustav! 

Medvedev cumprimentou o segurança que fazia o controle na entrada do edifício. Foi quando ele percebeu a atitude diferente do segurança.

-Lamento professor, mas recebi ordens de não permitir sua entrada.

Medvedev não escondeu sua irritação. Decerto ele esperava que sus pares do Instituto Lebedev tomariam providências quanto a sua insistência em prosseguir com os testes, mas não achava que seriam tão rápidos. Ele teria que arranjar alguma maneira de entrar no prédio, e para isso, precisava ganhar tempo.

-Como assim!? Quem deu a ordem?

Depois de uma pequena hesitação, Gustav deu a informação.

-A ordem veio do General Korelenko.

Medvedev não escondeu o espanto. A ordem não viera dos estudiosos do instituto, ou da reitoria, mas sim, do exército, justamente quem financiava seu projeto. Seu sangue ferveu em suas veias. De todas as traições aquela era a que mais doía. Mas o homem não explodiu em fúria, precisou concentrar toda sua força de vontade para camuflar sua real condição.

-Quando a ordem chegou? - Perguntou.

-Há cerca de quinze minutos, professor.

O professor se aproximou do segurança, aparentava calma. 

-Tudo bem. Eu entendo... olha seria possível eu apenas pegar alguns papéis que estão em minha mesa...? São importantes....

-Lamento professor, mas as ordens eram espe.....

Gustav não teve tempo de completar a frase, Medvedev o atacou com um taser, instrumento que sempre carrega consigo, visto que não pode mais portar armas de fogo. Resquício de sua época na Guerra Fria. Atordoado com o choque, o segurança caiu no chão e ali ficou. O professor olhou em volta e se certificou que sua ação passara despercebida, em seguida agarrou o segurança desmaiado e o arrastou para trás do balcão da entrada. Pegou a Tokarev do coldre do homem, se o próprio Korelenko proibiu ele de ter acesso à máquina, essa ordem não seria a única medida que o general tomaria. Trancou a porta de entrada e a bloqueou com moveis para dificultar o acesso. Ele sabia que teria companhia em breve, por isso se dirigiu até a sala da segurança, sabia que ali encontraria maior poder de fogo, abriu o armário e encontrou um Kalashnicov e alguma munição e se dirigiu para a sala de controle. A hora estava chegando.

* * *

Kowalski se recuperou do golpe que recebeu, já estava de pé limpando a poeira das mãos e não tirava os olhos do carro que surgira em na sua frente como que por mágica. Desde sua chegada não percebeu nenhuma movimentação em seu interior. Pé ante pé, ele se aproximava do veículo quando de repente a porta gaivota do motorista se abriu e por ela sai um rapaz usando roupas amarrotadas e barba por fazer. Parecia um pouco desorientado, olhou em volta e para o céu, Kowalski viu um sorriso abrir no rosto do estranho jovem.

-Valeska, chegamos, parece que deu tudo certo!

A porta do passageiro se abriu e uma senhora de uns 70 anos apareceu.

-Tem certeza?

-Se duvida, pergunta pro Kowalski, ali!

O funcionário ficou espantado pelo fato de que aquele jovem de aparência estranha o conhecia, apesar  dele mesmo saber que é muito conhecido entre seus colegas e alunos devido ao tempo em que trabalha no campus. Kowalski não sabia o que fazer, queria perguntar o que estava acontecendo, mas estava paralisado com o susto que tomou, só conseguia ficar ali olhando para aquela dupla com uma expressão abobada no rosto.

A senhora olhou para o técnico em manutenção por alguns instantes, foi suficiente para se convencer.

-A gente não tem tempo pra isso, Medvedev já deve estar indo ligar a máquina.

Dizendo isso, correram direção do prédio anexo da Reitoria, deixando um Aleksy Kowalski mais perdido do que cego em tiroteio.

Cada minuto contava, por isso Ronaldo corria o mais rápido que podia, claro que sua companheira não conseguia manter o ritmo, devido à idade avançada, ela estava há alguns metros atrás do jovem quando viu que ele tinha para perto de uma árvore grande que era parte do paisagismo do campus. Demorou alguns segundos até ela o alcançar, estava ofegante.

-Meu Deus, Ronaldo! Eu sou uma velha quer me matar?

-Shhhh. - Ronaldo fez o sinal para ela fazer silêncio e apontou para onde estavam indo.

Valeska pôde ver homens fardados em frente ao edifício, soldados do exército. Estavam tentando forçar a entrada. 

-Lembra que haviam manchas escuras na entrada do prédio? - recordou o rapaz.

Valeska apenas acenou com a cabeça.

-O maluco já deve estar lá dentro e prestes a ligar a máquina. A gente tem pouco tempo.

De repente um flash de memória inundou a mente de Ronaldo. Ele viu soldados o prendendo e o jogando em um caminhão. Ele gritava que estava ali para ajudar mas eles não lhe davam ouvidos, então uma luz branca intensa surgiu e tudo ficou escuro. Ronaldo abriu os olhos, ele estava de volta ao campus com Valeska.

-O que foi? Você ficou tento de repente?

-N-Não sei, tive um clarão. Como se uma memória que surgiu do nada…

-Memória nova? O que você viu?

-Os soldados me prendiam e então o clarão vinha e acabava com tudo.

-Soldados? Aqueles soldados? 

Valeska apontou para o grupo na frente do prédio. O rapaz fez que sim. Valeska viu que Ronaldo ficou abalado, pensou por alguns instantes e tomou a decisão.

-Espera aqui. Vou dar um jeito nisso. - E saiu andando.

-Valeska!

Era tarde de mais, Valeska já estava a caminho, sem diminuir o passo, ela se virou e fez sinal para ele esperar. Rapidamente, ela chegou até os soldados. Ronaldo estava tenso, ele não sabia o que se passava na cabeça da amiga. Ele a viu conversando com um dos oficiais e gesticulou com os braços apontando para o prédio da reitoria que ficava há algumas dezenas de metros dali. A mulher tomou a direção apontada e os homens a seguiram, deixando a entrada do prédio anexo vazia.

Ronaldo percebeu a intenção da parceira e aproveitou a oportunidade, correu até a entrada principal e constatou que ela estava bloqueada, do mesmo jeito que a encontrara quando descobriu a máquina. Imediatamente ele se lembrou da janela do depósito por onde entrara anteriormente. Sem perder tempo foi até lá e a encontrou destrancada como da outra vez.

Não demorou muito e Ronaldo estava na entrada da sala de controle, não havia ninguém ali com ele, nem sinal de Medvedev, pela parede de vidro percebeu que a máquina antigravidade ainda não havia sido acionada. Quando se aproximou do painel, percebeu que estava sendo executado um diagnóstico completo do sistema, o processo levaria uns dez minutos. O rapaz decidiu fazer alguma coisa para impedir o acionamento do sistema, foi nesse instante que ouviu disparos e instantaneamente sentiu uma dor insuportável nas costas. Ele se virou e pôde ver Medvedev com uma pistola nas mãos, parado na  entrada da sala de controle. Ele o atingira pelas costas, seu pulmão foi perfurado, ele começou a se afogar no próprio sangue e caiu. Com um rosto desprovido de emoção, Medvedev se aproximou de Ronaldo. Este olhou para ele e tentou pedir para não ligar a máquina, mas o rapaz era incapaz de produzir qualquer som com os pulmões inundados de líquido. Medvedev apontou a arma para o rosto de Ronaldo, este desviou o olhar, prevendo o que ia acontecer, foi quando ouviu a voz de Medvedev.

-Dasvidaniya, toravish.

E puxou o gatilho.

dasvidaniya
Conto Parte 8: Dasvidaniya Conto Parte 8: Dasvidaniya Reviewed by Tulio Roberto on 15 fevereiro Rating: 5

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