Conto: Parte 7 - DMC-12

O silêncio reina na paisagem, nenhum movimento é percebido não há vento e a ausência de aves e pequenos animais ajuda na composição do cenário melancólico que se encontra o Campus da Universidade de São Yaroslav. Tem sido assim desde a malfadada experiência com antigravidade do Professor Medvedev, que praticamente isolou toda a região do resto do universo, mas as coisas estão prestes a mudar neste lugar fora da realidade.


Se esta chegando agora leia as partes anteriores. P01P02P03P04, P05, P06


Aos poucos, é percebido o ruído de um motor ao longe. O som vai aumentado progressivamente até que um DeLorean DMC-12 rompe a barreira de névoa que cerca o campus. O carro para em seguida, o motorista não sai do carro, espera alguns instantes até ter certeza de que seu perseguidor perdeu seu rastro. Passado esse tempo, o homem no interior do veículo resolve sair. O ocupante do carro tem uma aparência desgastada pelas várias tentativas de sair daquele lugar, quatorze ao todo, todas fracassadas.

Mas aquela viagem tinha um objetivo diferente. Sua missão não era sair dali, e sim, deixar uma mensagem. Seu tempo era curto. Sua presença ali era uma anomalia. Logo, o fluxo temporal existente dentro daquele microverso iria se corrigir e ele seria apagado, como se ele nunca tivesse estado ali.

Rapidamente, o motorista se dirige para o prédio da Faculdade de Física. Ele precisa chegar até uma determinada sala. Passando pelo pátio, ele dá uma olhada para um ônibus velho parado perto de uma antena parabólica. Presta atenção a fim de perceber algum movimento.

“Ela ainda está lá esperando, ainda dá tempo. ” – Pensou

Ele apressou os passos entrou no prédio e com cuidado ele não podia ser surpreendido pelo “morador” do local. Pelo que se lembra, ele ainda estava trancado em seu quarto tentando superar o fato do ônibus estar vazio. Ele percorre os corredores fazendo o mínimo de ruído, finalmente ele chega ao seu destino, a sala de controle de Ronaldo. Sem perder tempo ele começa a escrever fórmulas matemáticas na lousa e percebe que não vai ter espaço para tudo no quadro da sala, passou para as paredes.

“Eles vão entender! Tem que entender! ”

Ele ficou ali apenas o tempo suficiente para terminar sua tarefa. Quando estava saindo da sala ele ouve passos arrastados no corredor.

“É ela! Valeska deve estar chegando para me encontrar quando eu sair do quarto! Ela não pode me ver! “

Ronaldo olhou em volta e a única saída que via era sair pela janela, mas ele estava no terceiro andar. Era um longo caminho até o chão. Ele estava avaliando as possibilidades quando sentiu um leve tremor em suas mãos.

“Está começando”

O tremor foi se espalhando até tomar conta de seu corpo. Se movimentar ficou difícil, assim como pensar. A única coisa que conseguiu fazer foi se ajoelhar e se abraçar para tentar diminuir a horrível sensação. A fechadura da porta se moveu, ela ia entrar e vê-lo. O tremor aumentou ele se jogou deitado no piso da sala. Já não controlava mais seus movimentos, aos poucos, o corpo de Ronaldo começou a desaparecer como uma leve névoa branca. Quando a porta, finalmente se abriu, Valeska achou que havia alguém ali, mas após dar uma olhada na sala só percebeu uma janela aberta. Fechou-a e então percebeu as equações escritas nas paredes, se indagou no que Ronaldo estava trabalhando. Algumas ali eram conhecidas outas nunca tinha visto na vida. Ela ficou se perguntando quanto a sanidade mental do colega de classe. Foi com esses pensamentos na cabeça que ela ligou o player de música. Esboçou um leve sorriso quando começou a tocar Still Got The Blues e se dirigiu para o sofá no canto da sala, a fim de esperar por Ronaldo.

* * *

-Corre! Entra no carro!

A idosa Valeska mal podia se mover, tanto era o terror de ver um dinossauro predador indo em sua direção. Com um puxão, Ronaldo praticamente jogou a senhora dentro do DeLorean do professor Olaf. Pulou por sobre o capô e sentou ao volante, já dando partida, o motor ligou de primeira. O Velociraptor estava quase encima deles. O carro saiu derrapando os pneus, mas o animal não diminuiu o passo podia-se ver a sanha assassina em seus olhos, assim como em seu terrível sorriso.

-Ele ainda está atrás de nós! – Valeska estava atônita.

-Eu tô vendo!

-Tem alguma arma aqui?

-Isso aqui é uma universidade, não um quartel do exército! – Reclamou o rapaz, enquanto dirigia a esmo, tentando imaginar uma saída daquela situação.

Foi quando o motor começou a falhar. Os dois ficaram ainda mais desesperados. Ronaldo olhou para o painel do carro e o marcador de combustível estava no vazio.

-Ah, merda! Olaf, seu muquirana! Nem pra deixar o tanque cheio!!!

O carro parrou. Os dois se olharam e imediatamente olharam para trás, tentando visualizar seu perseguidor. Estranhamente ele diminuiu o passo e ficou olhando o carro imóvel de longe. Como um caçador experiente que já tinha enfrentado uma presa parecida, ele sabia que aquilo poderia ser um truque.



Os ocupantes do carro estavam ofegantes, de tanta tensão. Ronaldo pensou o um pouco, se virou para Valeska e disse:

-Olha, vamos fazer o seguinte. Eu saio do carro e atraio a atenção do bicho e quando ele vier atrás de mim você corre para o prédio da Física.

-Qu.... Quem você achou que eu sou? Tenho 70 anos! Como vou correr até lá!

-É o único jeito! Pelo menos eu tenho mais chance de correr dele do que você.

-Ah tá! Ele consegue acompanhar um carro e você acha que consegue correr mais do que ole? E tem mais...

-Ele tá vindo...

Dizendo essas palavras, Ronaldo abre a porta gaivota do carro.

-Ronaldo! Para!

Ele não deu atenção aos pedidos de sua amiga e sair em disparada. O raptor mordeu a isca e foi em seu encalço. A Valeska só restava aproveitar a oportunidade e ir para o prédio onde seria mais seguro.

* * *

Os pulmões de Ronaldo estavam queimando. Há quanto tempo ele não fazia exercícios físicos? Ele não lembrava. A única coisa que sabia era que precisava encontrar alguma coisa com que se defender da criatura pré-histórica que se aproximava a cada passo. Encontrou uma barra de fero no chão, há alguns metros dele, com muito esforço ele a alcançou. Quando se abaixou para pega-la, sentiu um empurrão, era o animal, ele o alcançara.

Ele rolou sobre a barra e a pegou. Sem ter tempo de olhar para trás, balançou a barra na tentativa de acertar em alguma coisa. Deu resultado. Ele acertou o rosto do animal em cheio, mas isso só deixou o irritado, contudo, Ronaldo ganhou tempo para se afastar. Ele correu até a entrada de um dos prédios próximos, a besta, já recuperada do golpe, estava apenas há alguns metros dele.

“Uma porta, tomara que esteja aberta... “

O rapaz se projetou para entrar pela porta e tentar fechá-la, deixando o raptor para fora. Ele bateu com tudo numa porta trancada. Meio atordoado pelo impacto, ele se virou para enfrentar o se perseguidor. Sabia que era seu fim, empunhou a barra de ferro de esperou o inevitável, o animal se aproximava rapidamente. Estava salivando, sentindo o gosto da carne e do sangue de sua presa. Quando de repente, tropeçou e caiu aos pés do atônito rapaz.

Ronaldo ficou surpreso com o imprevisto, após um momento de indecisão, empunhou a barra em suas mãos e estava pronto para golpear com toda força a cabeça de seu oponente, mal acreditando no golpe de sorte, quando notou algo estranho. O animal estava tendo convulsões. Todo o corpo do animal tremia de forma descontrolada. Ele parecia estar em agonia. O que estaria acontecendo com ele? Este era o pensamento na cabeça de Ronaldo quando algo ainda mais extraordinário acontece. A criatura, do período Cretáceo, estava desvanecendo como uma bruma sob o calor do Sol. E continuou assim até que não restasse rastro algum de sua existência.

O rapaz esgotado, encostado na porta trancada, abaixou os braços deixando a barra cair, pesada, no chão. Tentado recuperar o fôlego, se sentou arrastando as costas na porta.

-Mas que merda aconteceu aqui? – Foi a única coisa que Ronaldo conseguiu dizer.

* * *

Valeska está sentada de frente para as equações nas paredes quando a porta da sala se abre. Uma expressão de alívio surge em seu rosto quando vê seu colega de classe, e amigo, entrar por ela. Ela corre e o abraça forte ao que ela é prontamente correspondida.

Ronaldo aparenta estar exaurido então, desaba sobre o sofá. Depois de alguns minutos de descanso e de comer alguma coisa que sua amiga lhe trouxe da cozinha, ele relata como conseguiu escapar da morte certa.

-Ele desapareceu!?

-É.

-Como?

-Não faço ideia... Acho que a gente nunca vai saber...

Ronaldo voltou sua atenção para as fórmulas matemáticas. Deu uma espreguiçada e se levantou do sofá.

-Bom... com base no que acabou de acontecer, acho que a gente não tem muito tempo. Vai saber o que mais vai sair da névoa, não é mesmo?

Valeska acenou com a cabeça.

Ronaldo continuou.

-Vê essas sequências aqui. São muito parecidas com parte das equações que vi nos arquivos de Medvedev. Minha teoria é que, quem quer que tenha escrito isso utilizou o que o professor maluco usou para tentar encontrar um jeito de entrar e também de sair daqui.

-Faz sentido. Então, você acha que dá pra gente achar uma maneira de sair daqui?

-Não só de sair. Se eu estiver certo, podemos fazer muito mais.

Ronaldo começou a escrever na lousa e continuou até chegar a um resultado. Depois aplicou esse resultado em uma formula que viu nos arquivos de Medvedev e então, exclamou:

-ISSO!

-Se isso estiver certo podemos sair daqui e ainda arrumar toda essa bagunça!

-Como?

-Esses números são coordenadas que, se entramos na névoa na velocidade correta podemos sair daqui momentos antes de.... O que foi?

Havia uma expressão estranha no rosto de Valeska.

-Olha só! Essas são as formulas que já estavam escritas na parede quando nos encontramos...

-Sim, e daí. – Ronaldo não estava entendendo onde ela queria chegar.

-...e essas você acabou de escrever...

Ronaldo ainda não tinha pegado o ponto.

-A caligrafia é a mesma! Ronaldo, foi você quem escreveu tudo isso!

Continua...

Conto: Parte 7 - DMC-12 Conto: Parte 7 - DMC-12 Reviewed by Tulio Roberto on 21 dezembro Rating: 5

Nenhum comentário

Web Analytics