Conto: Parte 1 - Sozinho


Amanhece.

Ronaldo se espreguiça e lentamente abre os olhos. O quarto ainda está escuro por causa da janela fechada, mas ele pode ver a claridade entrando pelas frestas. Ele não quer levantar, sabe que precisa trabalhar, mas não tem nenhuma vontade de sair do quarto, na verdade não quer sair nem da cama.

Já faz três meses que eles se foram. Ele foi deixado para trás, alguém precisava ficar, então, ele se ofereceu. Parecia a escolha mais lógica, seus pais já haviam falecido, sem irmãos ou parentes próximos, havia apenas Iliana. Foi por ela que ele se ofereceu. Para que ela tivesse uma chance.

Reunindo um pouco de vontade ele se levanta de seu leito, que não é mais do que um colchão velho sobre um estrado de madeira apoiado sobre blocos de concreto. No pé da cama há um amontoado de roupas amassadas. É dali que ele puxa uma camiseta encardida e a veste, junto com um jeans roto.

Vai até a janela. Ao abri-la, uma luz alaranjada inunda o cômodo. A paisagem nunca muda, prédios abandonados, alguns desmoronaram sob o céu coberto de nuvens cuja cor varia do vermelho intenso até um laranja pálido, Isso foi tudo o que sobrou da universidade. Tem sido assim desde o Evento. Foi assim que eles chamaram o incrível flash de luz branca que sobreveio a todos naquele dia quente de primavera.



Ronaldo balança a cabeça decepcionado, ele se repreende por sempre alimentar a esperança de que um dia ele vai abrir aquela janela e tudo vai ter voltado ao normal.

De volta à realidade, ele sai do quarto e desce uma escada de metal. O lugar está deserto, com poeira se acumulando nos cantos. Não há insetos ou roedores, todos desapareceram logo após o Evento. Depois de atravessar um corredor ele chega até onde, outrora era o refeitório do campus, vai até a cozinha e vasculha os armários em busca de algo para calar o estômago rabugento. Encontra alguns pacotes de biscoitos e macarrão instantâneo, na grande geladeira há alguns potes de manteiga, creme de amendoim e um pouco de carne congelada. Ele não é bom em cozinhar, e por isso, nesses últimos meses tem vivido a base de macarrão e biscoitos. Carne, como é pouca, só de vez em quando.

Enquanto comia cada biscoito lentamente, para durar mais, Ronaldo seguiu para iniciar sua rotina diária. Percorrendo o longo corredor que levava à sala de controle, parou de repente. Um repentino estado de alerta se instalou no rapaz. Olhos e ouvidos bem abertos, ele sente uma presença próxima, mas não consegue ver ninguém por perto. O prédio possui um gerador de energia próprio, projeto de um dos professores, isso mantinha o local iluminado e equipamentos funcionando, mas a manutenção das lâmpadas fora negligenciada, por isso, o corredor estava escuro. Ronaldo continuava alerta, tinha que ter mais alguém ali, ele sentia isso. A tensão aumentava com o silêncio sepulcral.

Olhava em volta, tentando enxergar em meio a penumbra reinante no lugar. Não emitia som algum, não queria que o sinal da presença de qualquer coisa que seja fosse encoberto pela sua voz. Ele parecia uma presa que sentia que um predador estava próximo.

Não ouviu nada além de sua pesada respiração.

O rapaz sente que há algo ou alguém próximo a ele, nas suas costas, rapidamente dá um giro de 180 graus.

Ninguém.

E tão súbita e repentina como a sensação surgiu, se foi.

Aos poucos, a tensão diminui. Olhando em volta, Ronaldo recupera a calma, sua testa esta molhada de suor, é quando percebe que esmagou o pacote de biscoitos em sua mão sem perceber. Ele balança a cabeça.

“Agora vou ter que comer farofa de bolacha…” pensou.

Ressabiado, abriu a porta da sala de controle. Depois do que aconteceu no corredor não sabia o que poderia encontrar atrás das portas. Depois de ver que tudo estava como havia deixado no dia anterior, soltou um leve suspiro de alívio. A sala de controle, como era chamada, foi montada em sua antiga sala de aula. Todos os móveis foram retirados e diante da grande janela, que dava vista para uma grande área aberta até o horizonte, foi colocada uma das mesas do refeitório onde instalaram monitores e aparelhos de telemetria. Era nessa sala que Ronaldo passava a maior parte do dia, saindo dali apenas com a escuridão já instalada do lado de fora, para dormir um pouco.

Após checar o funcionamento dos equipamentos, Ronaldo se senta da poltrona Giroflex que pegou da sala da reitoria. Liga um player de música e observa a paisagem monótona enquanto mastiga os pedaços que sobraram dos biscoitos e maldiz seu professor pela coletânea de músicas dos anos 80 na memória do aparelho.



Da janela, é possível ver uma grande antena parabólica instalada ao nível do chão apontada na direção do horizonte. Na verdade não há horizonte, logo após o Evento, as pessoas que sobreviveram ao flash de luz branca notaram a mudança da cor do céu logo de imediato, mas o mais intrigante foi descoberto nos dias que se seguiram. Todos os insetos e pequenos animais como roedores e pássaros haviam desaparecido. Todos os meios de comunicação deixaram de funcionar, não havia internet, Celular, TV, nem mesmo rádio, além disso, descobriram que boa parte do campus da universidade havia desaparecido, envolto em uma névoa espessa, também alaranjada, essa névoa circundava toda a área que compreendia os prédios das faculdades de Engenharia Aéro-Espacial, Física e Astronômia, estavam completamente isolados. O professor Olaf, da turma de Ronaldo a batizou de A Fronteira. Vários foram os que tentaram penetrar na névoa, a fim de encontrar uma saída, alguns entravam e logo em seguida não davam mais sinal de vida outros andavam alguns passos só para voltar gritando como loucos dizendo que haviam criaturas na névoa e que seriam todos devorados.

Ronaldo gastou um tempo pensando no que aconteceu no corredor, nunca havia tido experiência semelhante e sua mente científica se recusava em acreditar no sobrenatural. Muito embora todo aquele cenário em que estava vivendo desse base para começar a cogitar essa possibilidade.

Absorto em seus pensamentos, ele percebe algo no monitor à sua direita, chamando sua atenção. A tela se apaga e retorna numa fração de segundo. As informações são da telemetria do Módulo, ele se estica em sua poltrona para dar uma olhada pela janela em direção à antena. Tudo normal. Digita alguns comandos no teclado a fim de executar um diagnóstico no sistema. Num monitor ao lado começam a surgir itens na tela seguidos do  status “OK”. Tudo parece correto até chegar ao item “Transpônder do Módulo” onde é exibido o status “ERROR” em vermelho.

A mensagem do sistema fez Ronaldo engasgar, depois de uma crise de tosse, exclamou:

- ILIANA!!!


Continua...

Parte 2 já esta no ar.
Conto: Parte 1 - Sozinho Conto: Parte 1 - Sozinho Reviewed by Tulio Roberto on 09 novembro Rating: 5

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