O Filme Maldito

Um homem vive recluso em uma suíte de luxo de um hotel nos EUA. Seus dias se resumem em comer porcarias e  assistir a dois filmes diariamente, Estação Polar Zebra, um thriller de espionagem dos anos 50, e o segundo filme que consumiu parte de sua fortuna para ser produzido e além disso, de tão ruim, ele mesmo gastou uma boa quantia comprando cada rolo do longa espalhado pelo mundo com o objetivo de que ninguém pudesse assistir ao filme que era motivo de vergonha para ele, Sangue de Bárbaros.

Estamos em meados dos anos 70, o homem recluso na suíte de Hotel é ninguém menos do que Howard Hughes, milionário aviador e dono do estúdio de cinema RKO. Você deve se lembrar dele por causa de cinebiografia produzida por Martin Scorcese com Leonardo DiCaprio no papel principal, O Aviador, de 2004. Mas, por que Sangue de Bárbaros (The Conqueror, 1956) era motivo de vergonha para Hughes?

Foram vários os fatores, entre eles, roteiro ruim, péssima escolha de elenco, locações, além de uma generosa dose de azar. Se você acha que o filme mais azarado é O Homem que Matou Don Quixote, de Terry Gillian, que nunca chegou a ser finalizado, espere para ver a saga de Sangue de Bárbaros!

Nossa história começa em meados dos anos 50, quando Hughes enfiou na cabeça que queria produzir um épico histórico. Então surgiu o roteiro de Oscar Millard sobre a trajetória de Temugin, líder mongol que expandiria seus domínios até que seu império fosse o maior em extensão territorial da história da humanidade e ele se tornasse o lendário Gengis Khan.

ROTEIRO E ELENCO


O roteiro já havia sido rejeitado pelo diretor Dick Powell, ele achava  texto absurdo e sem a menor chance de ser um sucesso. Mas, por insistência de Hughes, ele acabou por embarcar do projeto. 

Logo começaram os problemas de elenco. O personagem principal fora originalmente escrito para que  Marlon Brando o interpretasse mas, este espertamente, alegou obrigações contratuais com outras produções, como motivo para recusar o convite. Para resolver o problema a RKO lançou mão do contrato que tinha com outra estrela da época, John Wayne, figurinha fácil em produções Western e filmes de Segunda Guerra. O Duque, como era chamado, tinha um contrato de três filmes e, por isso, não pôde dizer não. Imaginem um caucasiano típico interpretando um asiático!

 E as trapalhadas não param por aí, para fazer par romântico com John Wayne, foi escalada a atriz Susan Hayward, de ascendência irlandesa, ruiva e de pele clara. Seu papel era o de Bortai, esposa tártara de Temugin. Além disso, o elenco de apoio era composto por nativos americanos e mexicanos. Uma bagunça só!

O casal protagonista: "asiáticos"


LOCAÇÃO


Se já não bastasse os equívocos na escolha do elenco e o roteiro ruim, a escolha do local das filmagens talvez tenha sido a decisão mais desastrosa da equipe de Sangue de Bárbaros.

A ideia original seria filmar a película nas estepes da Mongólia mas, devido ao inicio da Guerra Fria, a região ficou na zona de influência da União Soviética, o que impossibilitou a ida de uma equipe de cinema americana para lá. A solução seria encontrar um lugar semelhante em território americano, o deserto de Utah, mais precisamente, Escalante Valley. Essa escolha já se mostrava errada porque a paisagem do lugar era uma das mais características do meio-oeste americano e pouco se assemelhava ao deserto de Gobi, na China.

Escalante Valley: Paisagem clássica de western

Até então, aquela não seria a primeira produção que seria filmada em um lugar dizendo que é outro. Não é verdade? Pois foi esse o maior erro de todos os que foram cometidos nesse filme.

Acontece que, no estado vizinho, Nevada eram realizados testes nucleares de superfície, pelo exército americano. Mas o que testes nucleares realizados no estado vizinho tem a ver com Escalante Valley ? É que, devido às condições meteorológicas da região, toda nuvem radioativa das explosões nucleares era levada pelo vento e chuva e se depositavam exatamente na região onde a equipe do filme escolheu como locação. 

Mas, o que é um teste nuclear de superfície? Lembra-se dos minutos iniciais de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal? Quando o Indiana encontra aquela cidade cenográfica e a bomba pronta para explodir? Esse é o tal teste de superfície.

A região recebeu material radioativo de aproximadamente 11 detonações de artefatos nucleares, dois deles sendo bombas sujas, cuja principal característica é espalhar material radioativo em toda a área afetada.

O exército americano alegava que não havia perigo algum para o meio ambiente ou para as pessoas, por isso, não havia restrição de acesso à região.

A equipe ficou lá treze semanas. Mas os absurdos não pararam por aí. Como sabemos toda produção precisa de cenas extras para compor melhor a narrativa. No caso de Sangue de Bárbaros não foi diferente. Eles precisavam de novas cenas, decidiram gravar nos estúdios da RKO. Para compor o cenário, levaram cerca de 60 toneladas de terra radioativa para Los Angeles!

FINAL DAS CONTAS


Elenco principal: mortes por câncer e suicídio

O filme foi um fracasso de público e crítica. O tombo foi tão grande que levou Hughes a fechar a RKO.

Mas, quem teve maior prejuízo nessa história foram os profissionais que trabalharam aquelas treze semanas em Utah. Na década de 80, 91 dos 220 membros da equipe foram diagnosticados com câncer, desses, quarenta e seis morreram devido a doença, incluindo John Wayne e o diretor Dick Powell e cada um dos integrantes do elenco de apoio. Um deles, o mexicano Pedro Armendáriz, cometeu suicídio logo após receber o diagnóstico em 1963.

Além disso, inúmeros nativos americanos que trabalharam como guerreiros mongóis, contraíram câncer nos anos seguintes. Até o filho de John Wayne, Michael, que na época tinha 22 anos, morreu vítima da doença em 2003.

Hughes, se sentindo culpado por tudo o que aconteceu, fez campanha contra os testes de superfície. Sua vergonha com o filme o levou a gastar uma pequena fortuna comprando cada rolo do filme espalhado pelo globo. Ele não queria que as pessoas vissem seu vexame.

O governo americano nunca investigou a fundo se todas as mortes foram realmente causadas pela radiação dos testes. Mas as evidências são claras.

Após a morte de Hughes, em 1979, a Paramount adquiriu todo o acervo da RKO, incluindo a lendária produção que tinha adquirido a fama de ter matado um dos maiores ícones do cinema americano, e então, as pessoas puderam conhecer Sangue de Bárbaros.
O Filme Maldito O Filme Maldito Reviewed by Tulio Roberto on 04 outubro Rating: 5

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